Sobre urgências e a supervalorização dos bombeiros do dia a dia

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"Eu sei que isso é importante, mas não dá para fazer isso agora, preciso apagar um incêndio"

No mundo corporativo e na vida pessoal, frases parecidas com essa são ditas de boca cheia e orgulho no peito por incontáveis indivíduos diariamente. Talvez você seja uma dessas pessoas, talvez você trabalhe para um ou conviva com um em casa. Sabe o que eu penso quando escuto algo do tipo? Que não tem o menor sentido, até porque você não é bombeiro pra viver de apagar incêndio, ou é?

Eu nunca entendi esse ar de superioridade que as pessoas ficam ao dizerem que estão apagando incêndios. Para mim sempre soou inconsistente. A única profissão que pode falar que está apagando incêndio e de fato isso significar que a pessoa está fazendo algo importante é o Bombeiro (aliás, um salve pra esses profissionais maravilhosos que salvam de fato vidas diariamente). Qualquer outra pessoa está sendo incoerente. Se você é um profissional, executivo, empreendedor ou indivíduo de sucesso, você deveria estar focado no que é importante, tratando de questões estratégicas, acompanhando o andamento das suas atividades, garantindo que os objetivos estão sendo alcançados diariamente e não apagando incêndios. 

Incêndios são coisas urgentes não planejadas. São desvios na rota. São caprichos e descuidos. E normalmente são causados por falta de estratégia e planejamento. Focar no apagar do incêndio e nunca olhar para o planejamento e para corrigir o que o gerou vai te manter em um ciclo de urgências que nunca vai ter fim. E aí você nunca vai ter tempo (grande reclamação das mesmas pessoas que enchem a boca para falar que estão apagando incêndios) para evoluir. Sim, porque para amadurecer e evoluir você precisa romper o ciclo do urgente e definir de fato estratégias anti-incêndio. Mas, como eu já disse aqui no blog, tempo se faz, lembra?

Tá bom Alice, mas na prática eu faço o que? Deixo tudo pegando fogo? Sim, não, depende. Não vou ser leviana de dizer que você deve dar as costas para o incêndio totalmente. Mas também nós dois sabemos que nem todo incêndio tem proporções realmente catastróficas e alguns deles são apenas faíscas que podem esperar por soluções mais inteligentes e duradouras, concorda? Você pode delegar, você pode abafar, você pode reduzir, sem precisar se dedicar única e exclusivamente ao incêndio e tratando também de coisas importantes que, se não forem realizadas, vão gerar incêndios futuros ainda mais rigorosos.

É estratégia. E não dá para resolver problemas sem tirar um tempo para refletir realmente sobre o assunto. A forma mais eficaz de evitar incêndios é: planejamento, organização e gestão eficaz de riscos. Investir tempo e recursos na prevenção de acidentes. No início, assumir essa postura menos desesperada pode te dar algumas queimaduras leves, mas com certeza menos graves do que as consequências de viver a vida apagando incêndios diariamente. O nível de estresse numa situção de urgência, se prolongado, pode, inclusive, comprometer a sua avaliação e capacidade de resolver os problemas a médio prazo. 

"Ah, mas o cliente/filho/marido/oportunidade não vai esperar, ele não pode esperar". E eu te pergunto: porque não? Você, como cliente, por exemplo, se a empresa que você contratou explicasse exatamente os riscos de parar o que estão fazendo para te atender (como atrasar sua entrega, diminuir a qualidade da entrega, que são as consequencias mais comuns do apagar de incêndios), você pensaria bem e talvez até reavaliasse a sua necessidade, não? Eu, particularmente, respeitaria uma empresa que conseguisse me convencer de que eu estou errado e me pedisse para que deixasse eles fazerem o seu trabalho. Nem todo mundo aceitaria isso, eu sei, daí as queimaduras que podem aparecer pelo caminho. Mas se cada um resolver fazer o que é certo ao invés de tentar agradar e atender os caprichos dos outros, as coisas vão começar a mudar. E, por mais utópico que possa parecer, a gente tem sim o poder para isso. Sabe porque? Porque o mundo tá cansado de desculpas esfarrapadas e egos inflados. A gente quer fazer acontecer.


Eu não quero ser bombeiro. Eu quero ser aquele que age para evitar os incêndios. E você?

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